A lenda de Perkeo, o anão de Heidelberg

 

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O mundo do vinho é cheio de histórias interessantíssimas. Muitas delas, improváveis… A maioria mistura elementos históricos e reais com alguns detalhes, digamos, pouco verossímeis…  Hoje vou contar a lenda o anão Perkeo e a história do Grande Barril de Heidelberg.

 

O Barril de Heidelberg

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Encarapitado nas colinas sobre o rio Neckar, na cidade alemã de Heidelberg, encontra-se o Castelo de Heidelberg, hoje parcialmente em ruínas. Mas durante muitos séculos esse foi o imponente lar dos Príncipes Eleitores Palatinos, nobres do Sacro Império Romano-Germânico.

Fortaleza intransponível, o Castelo de Heidelberg foi sitiado inúmeras vezes e sempre resistiu, em parte graças ao interminável suprimento de vinho (que mantinha elevada a moral dos soldados e súditos). E todo esse vinho, suficiente para abastecer soldados e nobreza durante meses de sítio, era armazenado em gigantescos barris.

heidelbergtunO primeiro desses grandes barris foi fabricado em 1591 e chamou-se Johann-Casimir-Fass (fass significa barril em alemão), em homenagem ao Príncipe Johann Casimir, e tinha capacidade para 127 mil litros. O segundo (de 1664) foi o Karl-Ludwig-Fass com 195 mil litros, e o terceiro (de 1728) foi o Karl-Philipp-Fass com 202 mil litros.

Mas foi o quarto barril, o Karl-Theodor-Fass, construído em 1751 por ordem do Príncipe Eleitor Karl Theodor, que entrou para a História: com 7,3 metros de diâmetro por 10 metros de comprimento, possui capacidade para incríveis 221.000 litros de vinho! Em sua confecção foi utilizada madeira de 130 carvalhos das florestas da região. Este barril existe até hoje, vazio, como atração turística em sua sala no castelo. Segundo os historiadores, esteve totalmente cheio apenas em 3 ocasiões devido a vazamentos.

 

A lenda do anão Perkeo

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Por volta de 1720, o príncipe Karl Philipp (aquele do terceiro grande barril) era o Governador de Tirol e da Áustria, e morava em Innsbruck. Desolado com a morte de sua esposa e filha, passou a beber. Em uma dessas ocasiões foi apresentado por um de seus oficiais ao anão Clemens Pankert (ou Giovanni Clementi, segundo outras fontes), um tirolês fabricante de botões e célebre beberrão.

Espirituoso e divertido, Clemens ficou famoso por suas piadas e pela incrível tolerância à bebida (apesar de seu pequeno tamanho). Logo ganhou a simpatia do príncipe e foi convidado a servir à Corte como bufão (“bobo da corte”).

Quando lhe ofereciam mais uma taça de vinho, Clemens logo respondia, em italiano: “Perché no?” Passou então a ser chamado de Perkeo.

Quando Karl Philipp tornou-se Principe Eleitor do Palatinado, levou Perkeo consigo para Heidelberg como “Bobo da Corte”, entretendo a todos com suas piadas, histórias e com vinho. Tornou-se uma espécie de mascote da corte e era adorado pelos súditos. Mas era evidente que sua vocação era o vinho, desde sua produção até (e principalmente) seu consumo.

Assim, o Príncipe Eleitor nomeou Perkeo “Copeiro do Rei” e “Mestre de Cave” do castelo, incumbindo-o da responsabilidade de administrar os pequenos e grandes barris, provar e servir o vinho – trabalho que exercia com perfeição. Por anos ele foi o guardião do Grande Barril e andava pelo castelo com seu uniforme colorido, um misterioso relógio e uma enorme chave. E, é claro, uma grande taça de vinho.

Registros da época sugerem que ele bebesse regularmente cerca de 30 litros de vinho por dia.

“Assim era o anão Perkeo
no castelo de Heidelberg,
Pequeno em estatura
mas enorme na sede”.

Viktor von Scheffel

 

De acordo com a lenda, Perkeo viveu saudável até os oitenta anos, sem nunca ter bebido nada que não fosse vinho. Um dia, quando adoeceu pela primeira vez, o médico recomendou que bebesse muita água. Mesmo incrédulo, Perkeo obedeceu o conselho e morreu na manhã seguinte…

 


 

Curiosidades

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“Bufão Perkeo frente ao Castelo de Schwetzingen”, cerca de 1725, por Johann Georg Dathan. Óleo sobre madeira. Museu do Palatinado – Heidelberg

  • No castelo de Heidelberg, guardando o Grande Barril, existe uma estátua de madeira de Perkeo. E no topo do barril há uma pista de dança (???).
  • O grande escritor francês Victor Hugo, após uma visita ao castelo (já em ruínas) em 1840, escreveu suas impressões sobre o castelo, o Barril e sobre a lenda de Perkeo uma carta. Nela o escritor narra que Perkeo, na verdade, era humilhado diariamente e açoitado se não surgisse bêbado para entreter os príncipes da Prussia.
  • A história de Perkeo é celebrada todos os anos durante o Carnaval de Heidelberg (Fastnacht), assim como no se sua cidade natal, Salorno (Maschggra).
  • Estudiosos acreditam que Perkeo tivesse Diabets insipidus, doença metabólica que explicaria sua “sede” insaciável e, em partes, sua baixa estatura.
  • Uma das teorias para sua morte seria a de que Perkeo bebeu água contaminada, talvez por cólera, e morreu rapidamente (33 anos de idade).

 

A Campanha da Azeitona 2016 começou no Esporão

 

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A pouco mais de 170 km a sudeste de Lisboa, junto à histórica cidade de Reguengos de Monsaraz, localiza-se as vinhas e olivais da Herdade do Esporão.

Importante produtora de vinhos do Alentejo desde a década de 1980, foi apenas em 1997, com a aquisição da SPAZA (Sociedade Produtora de Azeites do Alentejo), que entrou “com tudo” no mercado de azeites.

Desde então,  a Esporão Azeites desponta como uma das maiores (e mais premiadas) produtoras de azeite de Portugal, sendo referência nacional e internacional no setor.

A Campanha da Azeitona

No final de outubro começou em Portugal a Campanha da Azeitona 2016. No Alentejo, neste ano, prevê-se uma safra difícil, com baixas produções, resultado de um Inverno ameno, noites muito frias no final de Fevereiro e um Verão muito quente e seco.

No Esporão, a grande novidade deste ano é o lagar próprio, após quase 20 anos de planos e projetos. O lagar é o local onde é feita a extração, limpeza e filtragem das azeitonas. Com o lagar na propriedade será possível uma maior celeridade em todo o processo de decisão e seleção das azeitonas, além de maior preservação dos aromas e de suas melhores características, como o frescor.

“O lagar foi produzindo para o Esporão produzir melhores azeites a partir do que a natureza nos dá. Iniciamos, com esta campanha, um novo ciclo no Esporão”, comemora Ana Carrilho, oleóloga do Esporão e responsável pela produção dos azeites.

No novo lagar, com capacidade para mil litros (e podendo atingir até 2 mil litros, se necessário) as azeitonas terão tratamento especial: serão separadas e processadas em lotes menores, aumentando assim a flexibilidade de escolha na hora de produzir os melhores azeites. Além disso, os profissionais aproveitarão melhor os subprodutos do azeite: o caroço vai para a central térmica da Herdade, e o bagaço fará parte do composto utilizado para fertilizar as oliveiras.

A partir desta campanha 2016, o engarrafamento dos azeites passará também a ser feito na propriedade.

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Os azeites

O Esporão produz os azeites Virgem Extra, Orgânico, Cordovil, Seleção, Galega e Dop Moura (prometo uma série especial sobre azeitonas e azeites para breve). Produzidos a partir de azeitonas dos melhores olivais alentejanos, todos são extra virgem, produzidos por meio de métodos naturais e extraídos à frio. Sem aditivos ou misturas. 100% alentejanos e 100% puros.

 

No Brasil, os azeites do Esporão são importados pela Qualimpor e podem ser encontrados em supermercados, empórios e nos melhores restaurantes.

 

O que é o vinho “foxado”?

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O tema do post de hoje é pouco palatável. Vamos falar sobre um dos “defeitos” mais importantes do vinho, o  Foxado.

Coloco a palavra “defeito” entre aspas porque o foxado é, na verdade, uma característica de um tipo específico de vinho, e não um erro de vinificação ou resultado da guarda inadequada do vinho.

O termo “foxado” vem do inglês “foxy” e descreve um aroma terroso e adocicado, associado pelos europeus a pêlo de raposa (fox em inglês). No Brasil, o reconhecemos como o aroma de suco de uva, típico das “uvas de mesa” Concordia, Isabel e Niagara.

foxed-grapesEssas variedades pertencem à espécie Vitis labrusca, nativa da América do Norte, e são ótimas para o consumo in natura e para a produção de sucos e geléias. No entanto, os vinho produzidos com essas uvas possuem aroma desagradável ao paladar da maioria das pessoas, principalmente dos europeus.

Recentemente se descobriu que o aroma e sabor foxado dessas uvas e vinhos se deve ao composto aromático Antranilato de metila, um éster encontrado apenas nas uvas Vitis labrusca e seus híbridos, e que não está presente nas uvas chamadas européias (Vitis vinifera).

Na Europa, a vinificação de uvas americanas é proibida. Toda a produção de vinhos utiliza apenas cepas das uvas da espécie Vitis vinifera: Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, e outras aproximadamente 10.000 variedades…

garrafaoNo Brasil, a Vitis labrusca sempre foi a espécie utilizada na produção dos chamados “vinhos de mesa”, “vinhos de colônia” ou “vinhos de garrafão”. Apesar desse cenário estar mudando lentamente, ainda são a grande maioria dos vinhos produzidos por aqui. Geralmente são doces (mas também podem ser secos), e fazem grande sucesso entre os consumidores não acostumados ao paladar mais seco e tânico dos vinhos finos (produzidos com Vitis vinifera). Além do Brasil, poucos países produzem vinhos foxados…

Nestes vinhos, propositalmente (e tradicionalmente) produzidos com uvas de variedades americanas, a presença do aroma e do sabor foxado é uma característica do vinho, não podendo ser considerado um defeito.

Pela legislação brasileira, vinho é definido com “bebida resultante da fermentação alcoólica completa ou parcial da uva fresca” sem qualquer menção à espécie de uva a ser utilizada. Dessa forma, é permitido a vinificação da Vitis labrusca desde que conste “Vinho de Mesa de Americanas” no rótulo e não se misture com uvas viníferas.