La Dame de Montrose 2003

 

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Na minha opinião, maior prazer de se beber um bom vinho é poder dividi-lo com os amigos! E no último sábado tive o imenso prazer de compartilhar com amigos incríveis uma garrafa de um vinho magnífico: o “La Dame de Montrose 2003

La Dame de Montrose é o “segundo vinho” do famoso Château Montrose, estrela da AOC Saint-Estèphe, na região do Médoc (margem esquerda do Gironde) e famosa por seus vinhos longevos e tânicos. Classificado como “Deuxième Cru” na Classificação Oficial dos Vinhos de Bordeaux, de 1855, o Château Montrose produz vinhos que necessitam de longo tempo de envelhecimento para atingirem seu potencial.

O La Dame tem seu nome em referência à Yvonne Charmolue, que dirigiu sozinha o Château Montrose de 1944 a 1960 e reergueu a propriedade depois da Segunda Guerra Mundial. Em seu blend normalmente predomina a Merlot, o que confere maior maciez em relação ao “Grand Vin”, e o tempo de envelhecimento é de 12 meses em barricas francesas (30% novas). Assim, o vinho costuma atingir a maturidade mais cedo que o “primeiro vinho” (que tem predomínio da Cabernet Sauvignon e envelhecimento de 18 meses em barricas 60% novas) e ser mais “fácil” de beber.

O ano de 2003 em Bordeaux foi mais quente e seco que o normal e produziu vinhos ricos e estruturados, e com taninos intensos e grande potencial de guarda. O château, então, proveitando-se das ótimas condições da safra 2003 produziu um La Dame de Montrose de exceção: com 65% de Cabernet Sauvignon e apenas 35% de Merlot. Um vinho com a elegância de seu “irmão mais velho” mas que, teoricamente, estaria pronto para beber mais cedo.

Depois de guardá-lo por alguns anos na minha adega, finalmente dicidi que era hora de prová-lo! Mesmo sabendo do potencial da safra optei por não decantar o vinho, o que resultou em algumas borras no fundo da garrafa.

Logo de cara o vinho já mostrou que estava vivo e bem: uma coloração rubi intensa na taça, com nuances atijoladas.

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Os aromas, desde o início, eram intensos e com grande complexidade: pouca fruta negra (bem madura), um leve mentol, terra seca, madeira, chocolate, caixa de charutos e um leve aroma animal (estrebaria) que evoluiu para aroma de couro.

Na boca mostrou corpo médio e acidez moderada, com pouca fruta e bastante cacau em pó. Os taninos, surpreendentemente intensos para a idade, eram de altíssima qualidade e mostravam que o vinho ainda teria uns bons anos pela frente. A persistência final aromática era incrível, passando dos 15 segundos e deixando a boca enxuta e macia.

Em resumo: um vinhaço!! Elegante e ainda com boa estrutura, pronto para beber mas possível de guardar por mais alguns anos. Uma pena que eu não tenha uma outra garrafa…

Minha nota: 95 pontos.


 

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Duelo de gigantes: Altaïr 2002 x 2004

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Recentemente tive o privilégio de provar esses dois belíssimos vinhos, ícones chilenos, e não posso deixar de contar a experiência!

 

Altaïr, o nome dos vinhos e da vinícola, é também o nome da estrela mais brilhante da constelação de Áquila (ou Águia), e pode ser vista brilhando no céu tanto do hemisfério Norte quanto do Sul. O nome cai como uma luva para o vinho que tem brilhado forte, e se destacado, dentre numa constelação de bons vinhos produzidos atualmente no Chile.

A Viña Altaïr foi fundada em 2001 como uma joint-venture entre o Laurent Dassault (proprietário dos Châteaux Dassault e La Fleur, em Saint-Émilion) e a gigante Viña San Pedro (segunda maior produtora de vinhos do Chile). A primeira safra produzida foi a 2002 e já impressionou logo de cara. Em 2007 o grupo chileno comprou a parte de Dassault; mas ao contrário do que se poderia esperar, o Altaïr acumulando prêmios e ótimas críticas internacionais.

Sob a batuta de Gonzalo Castro (enólogo chefe) e com consultoria do renomado Paul Hobbs, Altaïr é um vinho de corte que tem como base a Cabernet Sauvignon. As outras variedades que completam o blend tem proporções variadas a cada safra.

O árido Vale de Cachapoal, localizado no chamado Vale Central (que se estende ao sul de Santiago), foi o local escolhido para a vinícola. Mais especificamente o “Alto Cachapoal“, aos pés da Cordilheira dos Andes, com clima mediterrâneo e solo aluvial-coluvial, onde a Cabernet Sauvignon brilha como estrela de primeira grandeza. Os vinhedos se localizam à 800 metros acima do nível do mar, com ótima exposição solar e grande amplitude térmica.

As vinhas são conduzidas para apresentar baixíssimos rendimentos, a colheita é manual (em diversas passagens, sempre nas primeiras horas da manhã) e cada lote é vinificado e envelhecido em carvalho francês separadamente. E só então, após o estágio em barrica, é que os vinhos são degustados um a um, às cegas, e as variedades que comporão o blend naquele ano são definidas.

 

A degustação

Os vinhos degustados, das safras 2002 e 2004, não podiam ser mais diferentes entre si. Isso se dá, principalmente, pela presença da Merlot no 2002 — utilizada apenas nos blends 2002 e 2003 — substituída pela Syrah do ano 2004 em diante. Ambos os vinhos foram envelhecidos em barricas de carvalho francês de 225 litros (50% novas) por 15 meses. E antes da degustação, foram decantados por cerca de 3 horas.

IMG_5927O Altaïr 2002 é um corte de 86% de Cabernet Sauvignon, 7% de Carménère e 7% de Merlot.

Com 15 anos de guarda, já mostrava uma coloração rubi-granada, com halo tijolo. No nariz apresentava aromas exuberantes, já com pouca fruta (frutas negras maduras) mas com muita pimenta-do-reino, chocolate, tabaco, cedro e caixa de charutos. Sem aromas terciários apesar da idade, no máximo um toque de couro.

Na boca: uma seda! Corpo médio e muito equilibrado, tinha acidez moderada e taninos aveludados e muito elegantes, deixando a boca deliciosamente macia. E com um final muito longo de tabaco e chocolate. Um espetáculo de vinho!!

 

IMG_5931O Altaïr 2004 é outro vinho! Um blend de 73% de Cabernet Sauvignon, 15% de Syrah, 11% de Carménère e 1% de Cabernet Franc.

Mais intenso que seu “irmão mais velho” mas ainda jovem, apesar dos 13 anos de idade, exibia cor rubi intensa e um pequeno halo terroso. Aromas intensos de licor de cassis e geléia de amoras, floral, cravo da Índia, baunilha doce e chocolate.

Opulento e estruturado, tinha corpo médio-alto e acidez viva, álcool presente e taninos moderados e sedosos. Mostrava muito mais fruta e especiarias na boca, com menos presença de madeira e com um pouco mais de carga tânica. O final também muito longo e macio, deixava a boca querendo uma boa carne para acompanhar. Delicioso!!

 

O 2002 foi o meu preferido, mais “redondo” e já no seu auge! Um show de elegância e equilíbrio! Para beber agora ou nos próximos 5 anos. Já o 2004 é um vinho ainda com vida longa pela frente. Provavelmente evoluirá muito bem na próxima década e deve se tornar tão elegante quanto seu “irmão”, ou ainda mais…


 

Vinícola Guaspari: um tesouro paulista aberto para visitação

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Vinhos de qualidade, elogiados e premiados internacionalmente, sendo produzidos no Estado de São Paulo?    Sim, eles existem!    São os vinhos da jovem Vinícola Guaspari localizada em Espírito Santo do Pinhal, à 200km da capital paulista.

A primeira vez que ouvi falar na Vinícola Guaspari foi em 2013. Steven Spurrier (organizador do célebre “Julgamento de Paris” e editor da revista britânica Decanter) acabara de descrever seus vinhos como “Amazing Syrahs!” em artigo da revista Sommelier. Confesso que fique cético, até provar o Syrah Vista da Serra 2011… Que vinho!

Desde então acompanho cada nova safra de seus dois “maiores” produtos (os syrahs “Vista do Chá” e “Vista da Serra”) e tenho comprovado, ano a ano, a qualidade de seus vinhos. Virei fã!

Há cerca de dois anos, a vinícola esteve aberta à visitação por um curto período, apenas para poucos privilegiados (dos quais, infelizmente, eu não fiz parte). Foi apenas há algumas semanas que, finalmente, eu tive o prazer (e, porque não dizer, o privilégio) de visitar a Guaspari e conhecer de perto essa incrível vinícola.

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Saúde!!

Tudo começou em 2002 quando a família Guaspari adquiriu uma propriedade de 800ha (uma antiga fazenda de café) no município de Espírito Santo do Pinhal. Após estudos do solo e do microclima da fazenda, foi identificado grande potencial para viticultura – potencial, aliás, já registrado pelo botânico francês Auguste de Sainte-Hilaire, no início do século XIX, em sua passagem pelo Brasil.

Trata-se de uma região com altitudes entre 700 e 1300 metros, dias ensolarados e noites frescas, e grande amplitude térmica na época da colheita (10º-12ºC). O solo tem origem granítica e ótima drenagem. Tais características são encontradas em grandes regiões produtoras como a Côte-Rotie, no Rhône, e o Barossa Valley, na Austrália. Então, por que não experimentar com a viticultura?

As primeiras mudas de vitis vinifera, clones de plantas francesas, foram plantadas em 2006. Em 2008 a tulha de café da fazenda foi transformada em vinícola, preservando a arquitetura centenária mas investindo em tecnologia de ponta: tanques e equipamentos italianos, barricas de carvalho francês, laboratório de controle de qualidade… Os primeiros vinhos, no entanto, foram chegar ao mercado apenas em 2014.

A grande inovação tecnológica que permitiu o sucesso do vinhedo na região foi a técnica da “Dupla Poda“, que altera o ciclo natural da videira e permite a transferência de safra para o inverno, quando o clima local é ideal. A técnica foi desenvolvida pelo engenheiro agrônomo brasileiro Murillo de Albuquerque Regina (PhD em viticultura pela Universidade de Bordeaux e pesquisador da EPAMIG – Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais) e consiste numa primeira poda (a “poda de formação”) realizada em setembro, e uma segunda (a “poda de produção”) em janeiro ou fevereiro, preparando a videira para produzir os cachos. Assim, se obtém a maturação perfeita da uva mesmo numa região fora dos paralelos “clássicos” da viticultura (os paralelos 30º a 50º).

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Hoje na fazenda estão plantados 80ha de vinhas, com as variedades Syrah, Cabernet Sauvignon, Pinot Noir, Sauvignon Blanc, Chardonnay e Moscato. O vinhedo é divido em 12 parcelas, denominadas “Vistas“, de acordo com os diferentes terroirs encontrados na fazenda. As mudas são enxertadas em porta-enxertos americanos (apesar de não haver registro de Filoxera na região) e são conduzidas no sistema Guyot. Graças ao clima seco no período de maturação e colheita, há pouca (ou nenhuma) necessidade de irrigação ou de uso de defensivos agrícolas.

DSC_0560A colheita é manual, nas primeiras horas da manhã, e ocorre apenas no momento exato da maturação de cada variedade de uva (que pode ser diferente em cada parcela do vinhedo). Para isso um batalhão de viticultores trabalha incessantemente, sob a batuta da equipe de agrônomos da vinícola.

O investimento em capital humano, desde o início, também foi grande. Para compor a equipe, foram chamados profissionais com vasta experiência como Gustavo Gonzales (ex-enólogo da Robert Mondavi, na California, e da Tenuta dell’Ornellaia, na Toscana), Paulo Macedo (agrônomo português do grupo Symington, no Douro) e Christian Sepúlveda (engenheiro agrícola chileno), além de um time de enólogos liderados pela Flávia Cavalcante.

O resultado de todo investimento e paixão são vinhos de extrema qualidade que, desde as primeiras safras, tem conquistado prêmios e admiração mundo a fora. Desde 2013, é a única vinícola sul-americana convidada a participar do Palais de Grand Cru, organizada pela FICOFI no Petit Palais em Paris, ao lado de grandes produtores como Romanée Conti, Petrus, Sassicaia e Opus One.

Em 2016, os vinhos da Guaspari ganharam três medalhas no concurso Decanter World Wine Awards em Londres, sendo uma medalha de ouro (com 95 pontos!) para o Syrah Vista do Chá 2012, fato inédito na história dos vinhos brasileiros na competição. E em 2015 o vinho Syrah Vista da Serra 2012 já havia recebido a medalha de prata na 9ª edição da competição Syrah du Monde, organizada pela associação Forum D’Enologie, na França.

Assim, fica fácil entender porque considero a visita à Vinícola Guaspari um programa imperdível à todos os amantes de vinhos. A fazenda é paradisíaca e o visitante é levado a um delicioso passeio pelo campo para conhecer as vinhas de perto, transportado por um caminhão adaptado.

Sempre acompanhado por um dos membros da equipe, a visita continua dentro da vinícola com a explicação de todas as etapas da produção do vinho, desde a recepção das uvas, passando pela fermentação nos tanques, pela maturação nas barricas de carvalho, até o engarrafamento e o repouso das garrafas na cave.

E no final do passeio, quando todos já estão sedentos, os visitantes são recebidos para uma pequena degustação e tem oportunidade de experimentar os belos vinhos do portfólio da Guaspari.

Por enquanto ainda não há um restaurante próprio, o que obriga o visitante a almoçar nas poucas opções da cidade ou retornar para casa faminto. Mas a construção de um restaurante, um espaço de eventos e uma pousada dentro da propriedade estão nos planos da vinícola para um futuro breve.

Vinícola Guaspari
Rua Pedro Ferrari, 300 – Parque dos Lagos
Espírito Santo do Pinhal, SP
(19) 3661-9191
Horários de visitação: sábados e domingos, às 10:30h ou 14:30h
Visitação mediante reserva pelo e-mail: enoturismo@vinicolaguaspari.com.br
Preço por pessoa: R$120

Degustando…

Após a visita técnica, eu e os confrades da Confraria Vinho Nosso não víamos a hora de provar alguns dos bons vinhos da casa. Infelizmente, devido ao tempo escasso (demoramos muito na visitação tentando absorver cada detalhe), não pudemos degustar todos os vinhos disponíveis. Tivemos que nos contentar com os da linha de entrada – o que foi ótimo pois eram os vinhos que ainda não conhecíamos.

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O primeiro a ser provado foi o Vale da Pedra Branco 2015, um varietal de Sauvignon Blanc da parcela “Vista da Vinícola” com aromas florais e de maracujá. Na boca é cítrico, tem corpo médio, certa untuosidade (talvez pelos 14º de álcool) e acidez moderada. Um bom vinho. Dei 89 pontos.

A seguir, degustamos o Guaspari Rosé 2016, elaborado com uvas Syrahs de diferentes parcelas, fermentado em tanques de aço inox. Na taça, tem linda coloração rosa-clara. No nariz, aromas de morango, cereja, tuti-fruti e melancia. Mas na boca, faltou alguma coisa: corpo médio e acidez média, com meio de boca oco. 87 pontos apenas.

Terminando a curta degustação, o Vale da Pedra Tinto 2015, o Syrah de entrada da vinícola. Um blend de uvas dos vinhedos “Vista d’Água” e “Vista da Pedra”, fermenta em tanques de inox e matura de 6 a 8 meses em barricas de carvalho francês de primeiro e segundo uso. Que surpresa! Aromas iniciais de fruta negra madura, especiarias e cravo-da-índia. Depois, surgiu um toque de couro. Na boca, muitas especiarias, pimenta vermelha e cravo. Acidez moderada, corpo médio e taninos muito macios. Um vinho elegante e muito equilibrado, mostrando o potencial dos Syrahs desse terroir. E por um ótimo preço! Mereceu 91 pontos.

Os outros quatro vinhos do portfólio, não degustados na visita, são: os brancos Guaspari Sauvignon Blanc 2013 e Viognier Vista do Bosque 2015 (este último, um lançamento); e os as “estrelas” da vinícola, os dois tintos Syrah Vista da Serra 2014Syrah Vista do Chá 2014, que estão “descansando” na minha adega e serão devidamente avaliados daqui alguns anos. Mas a julgar pelas safras anteriores, são vinhos espetaculares!

Fica a dica!


“Se todos que nos rodeiam abraçarem esse sonho, se o nosso vinho reunir as pessoas e ainda conseguirmos retribuir à região tudo o que ela nos proporciona, então teremos plantado a semente para que as próximas gerações tenham uma nova visão sobre a região de Espírito Santo do Pinhal e sobre o vinho brasileiro.”

– Família Guaspari –