Vinícola Guaspari: um tesouro paulista aberto para visitação

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Vinhos de qualidade, elogiados e premiados internacionalmente, sendo produzidos no Estado de São Paulo?    Sim, eles existem!    São os vinhos da jovem Vinícola Guaspari localizada em Espírito Santo do Pinhal, à 200km da capital paulista.

A primeira vez que ouvi falar na Vinícola Guaspari foi em 2013. Steven Spurrier (organizador do célebre “Julgamento de Paris” e editor da revista britânica Decanter) acabara de descrever seus vinhos como “Amazing Syrahs!” em artigo da revista Sommelier. Confesso que fique cético, até provar o Syrah Vista da Serra 2011… Que vinho!

Desde então acompanho cada nova safra de seus dois “maiores” produtos (os syrahs “Vista do Chá” e “Vista da Serra”) e tenho comprovado, ano a ano, a qualidade de seus vinhos. Virei fã!

Há cerca de dois anos, a vinícola esteve aberta à visitação por um curto período, apenas para poucos privilegiados (dos quais, infelizmente, eu não fiz parte). Foi apenas há algumas semanas que, finalmente, eu tive o prazer (e, porque não dizer, o privilégio) de visitar a Guaspari e conhecer de perto essa incrível vinícola.

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Saúde!!

Tudo começou em 2002 quando a família Guaspari adquiriu uma propriedade de 800ha (uma antiga fazenda de café) no município de Espírito Santo do Pinhal. Após estudos do solo e do microclima da fazenda, foi identificado grande potencial para viticultura – potencial, aliás, já registrado pelo botânico francês Auguste de Sainte-Hilaire, no início do século XIX, em sua passagem pelo Brasil.

Trata-se de uma região com altitudes entre 700 e 1300 metros, dias ensolarados e noites frescas, e grande amplitude térmica na época da colheita (10º-12ºC). O solo tem origem granítica e ótima drenagem. Tais características são encontradas em grandes regiões produtoras como a Côte-Rotie, no Rhône, e o Barossa Valley, na Austrália. Então, por que não experimentar com a viticultura?

As primeiras mudas de vitis vinifera, clones de plantas francesas, foram plantadas em 2006. Em 2008 a tulha de café da fazenda foi transformada em vinícola, preservando a arquitetura centenária mas investindo em tecnologia de ponta: tanques e equipamentos italianos, barricas de carvalho francês, laboratório de controle de qualidade… Os primeiros vinhos, no entanto, foram chegar ao mercado apenas em 2014.

A grande inovação tecnológica que permitiu o sucesso do vinhedo na região foi a técnica da “Dupla Poda“, que altera o ciclo natural da videira e permite a transferência de safra para o inverno, quando o clima local é ideal. A técnica foi desenvolvida pelo engenheiro agrônomo brasileiro Murillo de Albuquerque Regina (PhD em viticultura pela Universidade de Bordeaux e pesquisador da EPAMIG – Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais) e consiste numa primeira poda (a “poda de formação”) realizada em setembro, e uma segunda (a “poda de produção”) em janeiro ou fevereiro, preparando a videira para produzir os cachos. Assim, se obtém a maturação perfeita da uva mesmo numa região fora dos paralelos “clássicos” da viticultura (os paralelos 30º a 50º).

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Hoje na fazenda estão plantados 80ha de vinhas, com as variedades Syrah, Cabernet Sauvignon, Pinot Noir, Sauvignon Blanc, Chardonnay e Moscato. O vinhedo é divido em 12 parcelas, denominadas “Vistas“, de acordo com os diferentes terroirs encontrados na fazenda. As mudas são enxertadas em porta-enxertos americanos (apesar de não haver registro de Filoxera na região) e são conduzidas no sistema Guyot. Graças ao clima seco no período de maturação e colheita, há pouca (ou nenhuma) necessidade de irrigação ou de uso de defensivos agrícolas.

DSC_0560A colheita é manual, nas primeiras horas da manhã, e ocorre apenas no momento exato da maturação de cada variedade de uva (que pode ser diferente em cada parcela do vinhedo). Para isso um batalhão de viticultores trabalha incessantemente, sob a batuta da equipe de agrônomos da vinícola.

O investimento em capital humano, desde o início, também foi grande. Para compor a equipe, foram chamados profissionais com vasta experiência como Gustavo Gonzales (ex-enólogo da Robert Mondavi, na California, e da Tenuta dell’Ornellaia, na Toscana), Paulo Macedo (agrônomo português do grupo Symington, no Douro) e Christian Sepúlveda (engenheiro agrícola chileno), além de um time de enólogos liderados pela Flávia Cavalcante.

O resultado de todo investimento e paixão são vinhos de extrema qualidade que, desde as primeiras safras, tem conquistado prêmios e admiração mundo a fora. Desde 2013, é a única vinícola sul-americana convidada a participar do Palais de Grand Cru, organizada pela FICOFI no Petit Palais em Paris, ao lado de grandes produtores como Romanée Conti, Petrus, Sassicaia e Opus One.

Em 2016, os vinhos da Guaspari ganharam três medalhas no concurso Decanter World Wine Awards em Londres, sendo uma medalha de ouro (com 95 pontos!) para o Syrah Vista do Chá 2012, fato inédito na história dos vinhos brasileiros na competição. E em 2015 o vinho Syrah Vista da Serra 2012 já havia recebido a medalha de prata na 9ª edição da competição Syrah du Monde, organizada pela associação Forum D’Enologie, na França.

Assim, fica fácil entender porque considero a visita à Vinícola Guaspari um programa imperdível à todos os amantes de vinhos. A fazenda é paradisíaca e o visitante é levado a um delicioso passeio pelo campo para conhecer as vinhas de perto, transportado por um caminhão adaptado.

Sempre acompanhado por um dos membros da equipe, a visita continua dentro da vinícola com a explicação de todas as etapas da produção do vinho, desde a recepção das uvas, passando pela fermentação nos tanques, pela maturação nas barricas de carvalho, até o engarrafamento e o repouso das garrafas na cave.

E no final do passeio, quando todos já estão sedentos, os visitantes são recebidos para uma pequena degustação e tem oportunidade de experimentar os belos vinhos do portfólio da Guaspari.

Por enquanto ainda não há um restaurante próprio, o que obriga o visitante a almoçar nas poucas opções da cidade ou retornar para casa faminto. Mas a construção de um restaurante, um espaço de eventos e uma pousada dentro da propriedade estão nos planos da vinícola para um futuro breve.

Vinícola Guaspari
Rua Pedro Ferrari, 300 – Parque dos Lagos
Espírito Santo do Pinhal, SP
(19) 3661-9191
Horários de visitação: sábados e domingos, às 10:30h ou 14:30h
Visitação mediante reserva pelo e-mail: enoturismo@vinicolaguaspari.com.br
Preço por pessoa: R$120

Degustando…

Após a visita técnica, eu e os confrades da Confraria Vinho Nosso não víamos a hora de provar alguns dos bons vinhos da casa. Infelizmente, devido ao tempo escasso (demoramos muito na visitação tentando absorver cada detalhe), não pudemos degustar todos os vinhos disponíveis. Tivemos que nos contentar com os da linha de entrada – o que foi ótimo pois eram os vinhos que ainda não conhecíamos.

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O primeiro a ser provado foi o Vale da Pedra Branco 2015, um varietal de Sauvignon Blanc da parcela “Vista da Vinícola” com aromas florais e de maracujá. Na boca é cítrico, tem corpo médio, certa untuosidade (talvez pelos 14º de álcool) e acidez moderada. Um bom vinho. Dei 89 pontos.

A seguir, degustamos o Guaspari Rosé 2016, elaborado com uvas Syrahs de diferentes parcelas, fermentado em tanques de aço inox. Na taça, tem linda coloração rosa-clara. No nariz, aromas de morango, cereja, tuti-fruti e melancia. Mas na boca, faltou alguma coisa: corpo médio e acidez média, com meio de boca oco. 87 pontos apenas.

Terminando a curta degustação, o Vale da Pedra Tinto 2015, o Syrah de entrada da vinícola. Um blend de uvas dos vinhedos “Vista d’Água” e “Vista da Pedra”, fermenta em tanques de inox e matura de 6 a 8 meses em barricas de carvalho francês de primeiro e segundo uso. Que surpresa! Aromas iniciais de fruta negra madura, especiarias e cravo-da-índia. Depois, surgiu um toque de couro. Na boca, muitas especiarias, pimenta vermelha e cravo. Acidez moderada, corpo médio e taninos muito macios. Um vinho elegante e muito equilibrado, mostrando o potencial dos Syrahs desse terroir. E por um ótimo preço! Mereceu 91 pontos.

Os outros quatro vinhos do portfólio, não degustados na visita, são: os brancos Guaspari Sauvignon Blanc 2013 e Viognier Vista do Bosque 2015 (este último, um lançamento); e os as “estrelas” da vinícola, os dois tintos Syrah Vista da Serra 2014Syrah Vista do Chá 2014, que estão “descansando” na minha adega e serão devidamente avaliados daqui alguns anos. Mas a julgar pelas safras anteriores, são vinhos espetaculares!

Fica a dica!


“Se todos que nos rodeiam abraçarem esse sonho, se o nosso vinho reunir as pessoas e ainda conseguirmos retribuir à região tudo o que ela nos proporciona, então teremos plantado a semente para que as próximas gerações tenham uma nova visão sobre a região de Espírito Santo do Pinhal e sobre o vinho brasileiro.”

– Família Guaspari –

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A lenda de Perkeo, o anão de Heidelberg

 

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O mundo do vinho é cheio de histórias interessantíssimas. Muitas delas, improváveis… A maioria mistura elementos históricos e reais com alguns detalhes, digamos, pouco verossímeis…  Hoje vou contar a lenda o anão Perkeo e a história do Grande Barril de Heidelberg.

 

O Barril de Heidelberg

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Encarapitado nas colinas sobre o rio Neckar, na cidade alemã de Heidelberg, encontra-se o Castelo de Heidelberg, hoje parcialmente em ruínas. Mas durante muitos séculos esse foi o imponente lar dos Príncipes Eleitores Palatinos, nobres do Sacro Império Romano-Germânico.

Fortaleza intransponível, o Castelo de Heidelberg foi sitiado inúmeras vezes e sempre resistiu, em parte graças ao interminável suprimento de vinho (que mantinha elevada a moral dos soldados e súditos). E todo esse vinho, suficiente para abastecer soldados e nobreza durante meses de sítio, era armazenado em gigantescos barris.

heidelbergtunO primeiro desses grandes barris foi fabricado em 1591 e chamou-se Johann-Casimir-Fass (fass significa barril em alemão), em homenagem ao Príncipe Johann Casimir, e tinha capacidade para 127 mil litros. O segundo (de 1664) foi o Karl-Ludwig-Fass com 195 mil litros, e o terceiro (de 1728) foi o Karl-Philipp-Fass com 202 mil litros.

Mas foi o quarto barril, o Karl-Theodor-Fass, construído em 1751 por ordem do Príncipe Eleitor Karl Theodor, que entrou para a História: com 7,3 metros de diâmetro por 10 metros de comprimento, possui capacidade para incríveis 221.000 litros de vinho! Em sua confecção foi utilizada madeira de 130 carvalhos das florestas da região. Este barril existe até hoje, vazio, como atração turística em sua sala no castelo. Segundo os historiadores, esteve totalmente cheio apenas em 3 ocasiões devido a vazamentos.

 

A lenda do anão Perkeo

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Por volta de 1720, o príncipe Karl Philipp (aquele do terceiro grande barril) era o Governador de Tirol e da Áustria, e morava em Innsbruck. Desolado com a morte de sua esposa e filha, passou a beber. Em uma dessas ocasiões foi apresentado por um de seus oficiais ao anão Clemens Pankert (ou Giovanni Clementi, segundo outras fontes), um tirolês fabricante de botões e célebre beberrão.

Espirituoso e divertido, Clemens ficou famoso por suas piadas e pela incrível tolerância à bebida (apesar de seu pequeno tamanho). Logo ganhou a simpatia do príncipe e foi convidado a servir à Corte como bufão (“bobo da corte”).

Quando lhe ofereciam mais uma taça de vinho, Clemens logo respondia, em italiano: “Perché no?” Passou então a ser chamado de Perkeo.

Quando Karl Philipp tornou-se Principe Eleitor do Palatinado, levou Perkeo consigo para Heidelberg como “Bobo da Corte”, entretendo a todos com suas piadas, histórias e com vinho. Tornou-se uma espécie de mascote da corte e era adorado pelos súditos. Mas era evidente que sua vocação era o vinho, desde sua produção até (e principalmente) seu consumo.

Assim, o Príncipe Eleitor nomeou Perkeo “Copeiro do Rei” e “Mestre de Cave” do castelo, incumbindo-o da responsabilidade de administrar os pequenos e grandes barris, provar e servir o vinho – trabalho que exercia com perfeição. Por anos ele foi o guardião do Grande Barril e andava pelo castelo com seu uniforme colorido, um misterioso relógio e uma enorme chave. E, é claro, uma grande taça de vinho.

Registros da época sugerem que ele bebesse regularmente cerca de 30 litros de vinho por dia.

“Assim era o anão Perkeo
no castelo de Heidelberg,
Pequeno em estatura
mas enorme na sede”.

Viktor von Scheffel

 

De acordo com a lenda, Perkeo viveu saudável até os oitenta anos, sem nunca ter bebido nada que não fosse vinho. Um dia, quando adoeceu pela primeira vez, o médico recomendou que bebesse muita água. Mesmo incrédulo, Perkeo obedeceu o conselho e morreu na manhã seguinte…

 


 

Curiosidades

"O bufão Perkeo frente ao castelo

“Bufão Perkeo frente ao Castelo de Schwetzingen”, cerca de 1725, por Johann Georg Dathan. Óleo sobre madeira. Museu do Palatinado – Heidelberg

  • No castelo de Heidelberg, guardando o Grande Barril, existe uma estátua de madeira de Perkeo. E no topo do barril há uma pista de dança (???).
  • O grande escritor francês Victor Hugo, após uma visita ao castelo (já em ruínas) em 1840, escreveu suas impressões sobre o castelo, o Barril e sobre a lenda de Perkeo uma carta. Nela o escritor narra que Perkeo, na verdade, era humilhado diariamente e açoitado se não surgisse bêbado para entreter os príncipes da Prussia.
  • A história de Perkeo é celebrada todos os anos durante o Carnaval de Heidelberg (Fastnacht), assim como no se sua cidade natal, Salorno (Maschggra).
  • Estudiosos acreditam que Perkeo tivesse Diabets insipidus, doença metabólica que explicaria sua “sede” insaciável e, em partes, sua baixa estatura.
  • Uma das teorias para sua morte seria a de que Perkeo bebeu água contaminada, talvez por cólera, e morreu rapidamente (33 anos de idade).

 

O novo Centro de Enoturismo da Taylor’s no Porto

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Se você precisa de mais um bom motivo para visitar Portugal, a tradicional casa de vinhos do Porto Taylor’s tem um: seu novo Centro de Enoturismo acaba de ficar pronto.

A Taylor’s é uma das maiores e mais antigas casas produtoras de Vinho do Porto e dedica-se exclusivamente à produção destes ícones portugueses. Desde 1692, ano de sua fundação, permanece uma empresa familiar e independente, e atua em todas as fases da produção, desde o plantio da vinha e cultivo das uvas até a elaboração, envelhecimento e engarrafamento dos vinhos. De importância histórica, é tida como a criadora do estilo LBV (Late Bottled Vintage) e permanece, ainda hoje, como sua principal produtora.

Localizado no coração da zona histórica de Vila Nova de Gaia, a “capital” do Vinho do Porto, o Centro de Visitas da Taylor’s recebe anualmente cerca de 100 mil visitantes de todo o mundo. Mas segundo Adrian Bridge, diretor-geral da Taylor’s, a empresa sentiu a necessidade de oferecer ao visitante uma experiência mais adaptada aos padrões do moderno enoturismo e de se destacar entre os demais centros de visitação de caves da região.

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A reestruturação e modernização do Complexo de Enoturismo da Taylor’s durou meses e recebeu investimentos de mais de 1 milhão de euros. O resultado é um moderno centro de visitação e degustação, onde os visitantes são apresentados à história da marca, desde a sua fundação.

No passeio os visitantes percorrem as históricas caves que abrigam os antigos cascos (tonéis de 630L) e cubas (de 20.000L) de carvalho onde envelhecem os vinhos do Porto, e aprendem os detalhes da produção desse maravilhoso vinho fortificado. Abaixo das caves encontram-se os túneis que abrigam a garrafeira, lendária coleção de vintages onde as garrafas (algumas com mais de dois séculos) repousam umas sobre as outras até atingirem a maturidade perfeita. Após este trajeto, os visitantes seguem para a sala de degustação, onde podem provar o Taylor´s Chip Dry e o Taylor´s Late Bottled Vintage, acompanhados de um expert da empresa. Outros vinhos podem ser acrescentados de acordo com o desejo (e o bolso) do visitante.

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A visita custa 12 euros e o percurso completo pode durar até 2 horas (a visita rápida tem duração de cerca de 20 minutos) com auxílio de audio-guias em português, inglês, espanhol, francês e alemão.

Centro de Visitas Taylor´s:

Horário: 10:00 às 19:30pm (última visita começa às 18:00)

Entrada: 12€ por pessoa

Rua do Choupelo nº 250, 4400-088 Vila Nova de Gaia

www.taylor.pt


No Brasil, os vinhos Taylor´s são importados e distribuídos pela Importadora Qualimpor.
www.qualimpor.com.br

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Degustação Taylors