Conheça a DOCa Rioja

 

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Rioja é, sem dúvida nenhuma, a mais famosa e tradicional região vinícola espanhola. É também uma das mais importantes Denominações do mundo! No ano de 2015 produziu 284 milhões de litros de vinho (e exportou 37,5% desse volume).

Vamos conhecer um pouco dessa maravilhosa região e seus vinhos?

 

A história de Rioja

Sua história vitivinícola começa na Antiguidade, durante o Império Romano, sobrevive à ocupação de Península Ibérica pelos árabes (que eram abstêmios) e floresce com o fim da Idade Média e o desenvolvimento do comércio. Mas o grande salto em qualidade e importância comercial para os vinhos de Rioja só ocorreu na segunda metade do século XIX, graças à uma conjunção de fatores.

Na década de 1860 as estradas de ferro chegaram à região de Rioja, fazendo a ligação entre as principais áreas vinícolas e os portos de Bilbao e Santander, no País Basco, e escoando facilmente a produção vinícola. Houve grande impulso à exportações dos vinhos riojanos, principalmente para as colônias espanholas na América.

Nessa época alguns enólogos de Rioja que tinham ido estudar em Bordeaux, entre eles Luciano Murrieta e Camilo Hurtado de Amézaga, retornaram trazendo modernos conceitos e técnicas de vinificação (como o uso de barricas de carvalho francês para envelhecimento do vinho). Fundaram bodegas de renome (Marqués de Murrieta Marqués de Riscal respectivamente) e provocaram um salto de qualidade nos vinhos de Rioja.

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A moderna (e linda) fachada da Marqués de Riscal.

Enquanto a produção de vinhos finos em Rioja crescia no final do século XIX, os vinhedos da França (e posteriormente de toda Europa) eram devastados pela Phylloxera. Em busca de saciar o lucrativo mercado britânico e a própria demanda francesa, enólogos e produtores de Bordeaux foram atraídos à Rioja (na época ainda livre da praga). Levaram na bagagem todo o savoir faire bordalês e influenciaram para sempre o estilo dos vinhos de Rioja. Nessa época foram fundadas importantes bodegas como La Rioja Alta, CVNE e Bodegas Lopez de Heredia.

No momento em que a filoxera atingiu Rioja, por volta de 1890, a solução para a praga (tema de um próximo post) já era bem conhecida e os vinhedos locais pouco sofreram. Entretanto, com o retorno de Bordeaux ao mercado internacional os produtores se viram obrigados a trocar o uso das caras barricas de carvalho francês por uma alternativa economicamente mais viável: o carvalho americano, que se tornou uma “marca registrada” dos vinhos de Rioja.

O prestígio dos vinhos de Rioja já estava bem estabelecido quando, em 1926, surgiu o Consejo Regulador, com o objetivo de limitar a zona de produção e garantir a qualidade dos vinhos. Rioja logo se tornou a primeira DO (Denominación de Origen) constituída na Espanha e, em 1991, ganhou status de DOCa (Denominación de Origen Calificada), ao lado do Priorato.

 

O terroir de Rioja

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A DO Rioja compreende uma área de aproximadamente 100km de extensão no Norte da Espanha, ao longo do rio Ebro, com em torno de 40km de largura. Localiza-se em um platô de altitude média de 460m acima do nível do mar, e abrange territórios das províncias de La Rioja, Navarra e Álava (no País Basco).

Seu nome deriva do “rio Oja”, um tributário do Ebro. Possui 63.593ha de vinhedos que produzem anualmente 280-300 milhões de litros de vinho, sendo 90% vinhos tintos.

O clima em Rioja é continental, mas com boa influência mediterrânea devido aos ventos quentes que penetram pelo vale do rio Ebro desde a Catalunha. Em seu limite norte, a Serra Cantabria isola a região dos fortes ventos do País Basco e retém a umidade vinda do oceano Atlântico (“efeito rain-shadow”). A média anual de precipitação é de pouco mais de 400mm.

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Rioja é dividida em três sub-regiões:

  1. Rioja Alavesa: é a região mais fria, de clima atlântico, e se localiza ao norte do rio Ebro. O solo é predominantemente argilo-calcário, em terraços. Produz vinhos mais encorpados e frescos.
  2. Rioja Alta: ocupa a parte do vale do Ebro a Oeste de Logroño, a capital da província. O clima é atlântico e ligeiramente mais quente que a Alavesa, com solos argilo-calcáreos, argilo-ferrosos e aluviais. Em geral seus vinhos são mais equilibrados e frutados.
  3. Rioja Baja: se extende de Logroño para o sul e para o leste. Tem clima mais seco e mais quente, devido à maior influência do Mediterrâneo. A seca costumava ser perigosa nos meses de verão mas desde a década de 1990 a irrigação foi permitida e resolveu o problema. Seus solos são aluviais e argilo-ferrosos. Uma pequena parte dos vinhedos se localiza na província vizinha de Navarra, mas o vinho produzido mantém a denominação Rioja. Os vinhos de Rioja Baja costumam ser mais alcoólicos e com menor acidez.

 

Os vinhos de Rioja

Os vinhos de Rioja são, tradicionalmente, vinhos de corte (ou seja, blends de diferentes uvas). Embora hoje em dia haja uma tendência à “modernização” dos vinho, explorando o potencial da Tempranillo, o “estilo tradicional” de Rioja acrescenta Garnacha, Graciano, Mazuelo e Maturana.

Para os vinhos brancos (apenas cerca de 10% da produção da denominação), o corte costuma ter como base a Viura (conhecida também como Macabeo), em associação com MalvasiaGarnacha Blanca e outras (Tempranillo Blanco, Maturana Blanca, Turruntés, Chardonnay, Sauvignon Blanc e Verdejo).

Tradicionalmente, os vinhos de Rioja (tintos e brancos) envelhecem em barricas de carvalho americano por longos períodos, mais do que os estabelecidos para outras DOs. Através da micro-oxigenação os vinhos evoluem e adquirem aromas relacionados à madeira e ao tempo, alterando a cor (os tintos tornam-se mais claros e os brancos vão ganhando tons acastanhados) e ganhando em complexidade e delicadeza.

No entanto, a partir da década de 1970, boa parte dos produtores de Rioja passaram a produzir vinhos com períodos mais longos de maceração e estágios mais curtos em madeira, em busca de um estilo mais “moderno” e economicamente mais viável. E o carvalho americano tem sido paulatinamente substituído pelo francês.

Atualmente, a tendência é produzir cada vez mais vinhos varietais, até mesmo com uvas de um vinhedo único, com objetivo de mostrar a personalidade da uva (em geral, da Tempranillo) e do vinhedo em si.

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De acordo com o tempo de crianza (isto é, o tempo de envelhecimento), os vinhos de Rioja são classificados em 4 categorias:

  •  Jóven: são vinhos engarrafados e colocados no mercado 1 anos após a colheita, podendo ou não ter passado por madeira. Como o próprio nome diz, são vinhos frutados e que não são aptos para guarda
  • Crianza: vinhos envelhecidos por um período mínimo de 24 meses (18 meses para os brancos e rosados) sendo no mínimo 12 meses em barricas de carvalho.
  • Reserva: tempo de envelhecimento mínimo de 36 meses (24 meses para brancos e rosados) sendo ao menos 12 meses em barricas de carvalho e pelo menos 6 meses em garrafa.
  • Gran Reserva: período mínimo de envelhecimento de 60 meses (48 meses para os brancos e rosados), sendo ao menos 24 meses em carvalho e 6 meses em garrafa.

Os vinhos Reserva e Gran Reserva não são necessariamente produzidos todos os anos, apenas em anos considerados excelentes. Estes vinhos, devido a passagem mais longa por madeira, adquirem maior estrutura e potencial para guarda. Os melhores exemplares podem resistir por décadas.

 

Degustando

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Na Confraria Vinho Nosso de setembro/2016 tivemos a oportunidade de degustar essa bela seqüência de vinhos de Rioja, de quatro prestigiados produtores. Nenhum vinho foi decantado. Eis aqui as minhas considerações:

– Marqués de Riscal Viña Collada 2014 – um vinho de Rioja Alavesa, representante do estilo “Jóven“, elaborado com 95% de Tempranillo (com 3% Graciano e 2% Mazuelo), com passagem em carvalho francês por 4 meses mais 3 meses em garrafa. Coloração rubi de média intensidade. Aromas de frutas vermelhas frescas, balsâmicos (mentol, esparadrapo) e leve baunilha. Depois, surgiu café. Na boca era seco, com acidez média-alta, corpo medio-baixo taninos suaves e de boa qualidade. Aromas de boca de fruta vermelha e chá, com baixa persistência. Vinho equilibrado e agradável. Preço: R$73

– Heras Cordón Vendimia Seleccionada 2012 – um “Crianza” de Rioja Alta, elaborado com 90% Tempranillo (mais Graciano e Mazuelo, 5% cada) com maturação em carvalho por 12 meses mais 12 meses em garrafa. Na taça, cor rubi de alta intensidade. Aromas de frutas negras maduras, madeira, tabaco, toffee, tostado e caixa de charuto. Em boca, seco, com alta acidez, corpo médio-alto e taninos médio-altos bastante macios. Aromas de boca de fruta madura e balsâmico, com média persistência. Equilibrado e gastronômico. Preço: R$165

– Marqués de Riscal Reserva 2011 – vinho de estilo clássico, “Reserva“, de Rioja Alavesa, 90% Tempranillo, 7% Graciano e 3% Mazuelo, com estágio em barricas de carvalho americano por 24 meses seguido de 12 meses em garrafa. Cor rubi de intensidade média-alta. Aroma com muita madeira, tabaco, caixa de charutos, curral (animal) e pouca fruta. Na boca: seco, acidez média, corpo médio, taninos intensos, um pouco ríspidos mas de ótima qualidade. Sabores de pimenta negra e madeira, com média persistência. Ótimo vinho, já no seu auge. Preço: R$212

– Marqués de Murrieta Reserva 2010 – belíssimo vinho de Rioja Alta, com uvas provenientes do famoso vinhedo Ygay (93% Tempranillo, 2% Graciano, 4% Mazuelo e 1% Garnacha). Um “Reserva” de estilo clássico, com envelhecimento em barricas de carvalho americano por 21 meses e 24 meses em garrafa. Coloração rubi de média intensidade. Aromas de frutas vermelhas maduras, caramelo, baunilha, chocolate e couro. Seco, com alta acidez, corpo médio e taninos moderados, muito macios! Aromas de boca frutados, com longa persistência. Vinhaço, com potencial para mais alguns anos de guarda! Eleito o melhor da degustação. Preço: R$250

– Beronia Gran Reserva 2008 – um ótimo vinho de Rioja Alta, de estilo mais moderno de vinificação, representante da classificação “Gran Reserva” com 26 meses de envelhecimento em barricas novas de carvalho francês seguido de 36 meses de descanso em garrafa. Elaborado com Tempranillo (90%), Graciano (5%) e Mazuelo. Na taça exibia coloração rubi de média intensidade com aromas de frutas vermelhas maduras, balsâmico (remédio), um leve floral, um leve mentol, couro e tabaco seco. Na boca era muito equilibrado, com acidez e corpo médios. Os taninos eram moderados, macios e aveludados. No palato, tabaco, fruta vermelha e balsâmico. Média persistência. Excelente! Preço: R$340

 


 

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Vinícola Guaspari: um tesouro paulista aberto para visitação

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Vinhos de qualidade, elogiados e premiados internacionalmente, sendo produzidos no Estado de São Paulo?    Sim, eles existem!    São os vinhos da jovem Vinícola Guaspari localizada em Espírito Santo do Pinhal, à 200km da capital paulista.

A primeira vez que ouvi falar na Vinícola Guaspari foi em 2013. Steven Spurrier (organizador do célebre “Julgamento de Paris” e editor da revista britânica Decanter) acabara de descrever seus vinhos como “Amazing Syrahs!” em artigo da revista Sommelier. Confesso que fique cético, até provar o Syrah Vista da Serra 2011… Que vinho!

Desde então acompanho cada nova safra de seus dois “maiores” produtos (os syrahs “Vista do Chá” e “Vista da Serra”) e tenho comprovado, ano a ano, a qualidade de seus vinhos. Virei fã!

Há cerca de dois anos, a vinícola esteve aberta à visitação por um curto período, apenas para poucos privilegiados (dos quais, infelizmente, eu não fiz parte). Foi apenas há algumas semanas que, finalmente, eu tive o prazer (e, porque não dizer, o privilégio) de visitar a Guaspari e conhecer de perto essa incrível vinícola.

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Saúde!!

Tudo começou em 2002 quando a família Guaspari adquiriu uma propriedade de 800ha (uma antiga fazenda de café) no município de Espírito Santo do Pinhal. Após estudos do solo e do microclima da fazenda, foi identificado grande potencial para viticultura – potencial, aliás, já registrado pelo botânico francês Auguste de Sainte-Hilaire, no início do século XIX, em sua passagem pelo Brasil.

Trata-se de uma região com altitudes entre 700 e 1300 metros, dias ensolarados e noites frescas, e grande amplitude térmica na época da colheita (10º-12ºC). O solo tem origem granítica e ótima drenagem. Tais características são encontradas em grandes regiões produtoras como a Côte-Rotie, no Rhône, e o Barossa Valley, na Austrália. Então, por que não experimentar com a viticultura?

As primeiras mudas de vitis vinifera, clones de plantas francesas, foram plantadas em 2006. Em 2008 a tulha de café da fazenda foi transformada em vinícola, preservando a arquitetura centenária mas investindo em tecnologia de ponta: tanques e equipamentos italianos, barricas de carvalho francês, laboratório de controle de qualidade… Os primeiros vinhos, no entanto, foram chegar ao mercado apenas em 2014.

A grande inovação tecnológica que permitiu o sucesso do vinhedo na região foi a técnica da “Dupla Poda“, que altera o ciclo natural da videira e permite a transferência de safra para o inverno, quando o clima local é ideal. A técnica foi desenvolvida pelo engenheiro agrônomo brasileiro Murillo de Albuquerque Regina (PhD em viticultura pela Universidade de Bordeaux e pesquisador da EPAMIG – Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais) e consiste numa primeira poda (a “poda de formação”) realizada em setembro, e uma segunda (a “poda de produção”) em janeiro ou fevereiro, preparando a videira para produzir os cachos. Assim, se obtém a maturação perfeita da uva mesmo numa região fora dos paralelos “clássicos” da viticultura (os paralelos 30º a 50º).

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Hoje na fazenda estão plantados 80ha de vinhas, com as variedades Syrah, Cabernet Sauvignon, Pinot Noir, Sauvignon Blanc, Chardonnay e Moscato. O vinhedo é divido em 12 parcelas, denominadas “Vistas“, de acordo com os diferentes terroirs encontrados na fazenda. As mudas são enxertadas em porta-enxertos americanos (apesar de não haver registro de Filoxera na região) e são conduzidas no sistema Guyot. Graças ao clima seco no período de maturação e colheita, há pouca (ou nenhuma) necessidade de irrigação ou de uso de defensivos agrícolas.

DSC_0560A colheita é manual, nas primeiras horas da manhã, e ocorre apenas no momento exato da maturação de cada variedade de uva (que pode ser diferente em cada parcela do vinhedo). Para isso um batalhão de viticultores trabalha incessantemente, sob a batuta da equipe de agrônomos da vinícola.

O investimento em capital humano, desde o início, também foi grande. Para compor a equipe, foram chamados profissionais com vasta experiência como Gustavo Gonzales (ex-enólogo da Robert Mondavi, na California, e da Tenuta dell’Ornellaia, na Toscana), Paulo Macedo (agrônomo português do grupo Symington, no Douro) e Christian Sepúlveda (engenheiro agrícola chileno), além de um time de enólogos liderados pela Flávia Cavalcante.

O resultado de todo investimento e paixão são vinhos de extrema qualidade que, desde as primeiras safras, tem conquistado prêmios e admiração mundo a fora. Desde 2013, é a única vinícola sul-americana convidada a participar do Palais de Grand Cru, organizada pela FICOFI no Petit Palais em Paris, ao lado de grandes produtores como Romanée Conti, Petrus, Sassicaia e Opus One.

Em 2016, os vinhos da Guaspari ganharam três medalhas no concurso Decanter World Wine Awards em Londres, sendo uma medalha de ouro (com 95 pontos!) para o Syrah Vista do Chá 2012, fato inédito na história dos vinhos brasileiros na competição. E em 2015 o vinho Syrah Vista da Serra 2012 já havia recebido a medalha de prata na 9ª edição da competição Syrah du Monde, organizada pela associação Forum D’Enologie, na França.

Assim, fica fácil entender porque considero a visita à Vinícola Guaspari um programa imperdível à todos os amantes de vinhos. A fazenda é paradisíaca e o visitante é levado a um delicioso passeio pelo campo para conhecer as vinhas de perto, transportado por um caminhão adaptado.

Sempre acompanhado por um dos membros da equipe, a visita continua dentro da vinícola com a explicação de todas as etapas da produção do vinho, desde a recepção das uvas, passando pela fermentação nos tanques, pela maturação nas barricas de carvalho, até o engarrafamento e o repouso das garrafas na cave.

E no final do passeio, quando todos já estão sedentos, os visitantes são recebidos para uma pequena degustação e tem oportunidade de experimentar os belos vinhos do portfólio da Guaspari.

Por enquanto ainda não há um restaurante próprio, o que obriga o visitante a almoçar nas poucas opções da cidade ou retornar para casa faminto. Mas a construção de um restaurante, um espaço de eventos e uma pousada dentro da propriedade estão nos planos da vinícola para um futuro breve.

Vinícola Guaspari
Rua Pedro Ferrari, 300 – Parque dos Lagos
Espírito Santo do Pinhal, SP
(19) 3661-9191
Horários de visitação: sábados e domingos, às 10:30h ou 14:30h
Visitação mediante reserva pelo e-mail: enoturismo@vinicolaguaspari.com.br
Preço por pessoa: R$120

Degustando…

Após a visita técnica, eu e os confrades da Confraria Vinho Nosso não víamos a hora de provar alguns dos bons vinhos da casa. Infelizmente, devido ao tempo escasso (demoramos muito na visitação tentando absorver cada detalhe), não pudemos degustar todos os vinhos disponíveis. Tivemos que nos contentar com os da linha de entrada – o que foi ótimo pois eram os vinhos que ainda não conhecíamos.

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O primeiro a ser provado foi o Vale da Pedra Branco 2015, um varietal de Sauvignon Blanc da parcela “Vista da Vinícola” com aromas florais e de maracujá. Na boca é cítrico, tem corpo médio, certa untuosidade (talvez pelos 14º de álcool) e acidez moderada. Um bom vinho. Dei 89 pontos.

A seguir, degustamos o Guaspari Rosé 2016, elaborado com uvas Syrahs de diferentes parcelas, fermentado em tanques de aço inox. Na taça, tem linda coloração rosa-clara. No nariz, aromas de morango, cereja, tuti-fruti e melancia. Mas na boca, faltou alguma coisa: corpo médio e acidez média, com meio de boca oco. 87 pontos apenas.

Terminando a curta degustação, o Vale da Pedra Tinto 2015, o Syrah de entrada da vinícola. Um blend de uvas dos vinhedos “Vista d’Água” e “Vista da Pedra”, fermenta em tanques de inox e matura de 6 a 8 meses em barricas de carvalho francês de primeiro e segundo uso. Que surpresa! Aromas iniciais de fruta negra madura, especiarias e cravo-da-índia. Depois, surgiu um toque de couro. Na boca, muitas especiarias, pimenta vermelha e cravo. Acidez moderada, corpo médio e taninos muito macios. Um vinho elegante e muito equilibrado, mostrando o potencial dos Syrahs desse terroir. E por um ótimo preço! Mereceu 91 pontos.

Os outros quatro vinhos do portfólio, não degustados na visita, são: os brancos Guaspari Sauvignon Blanc 2013 e Viognier Vista do Bosque 2015 (este último, um lançamento); e os as “estrelas” da vinícola, os dois tintos Syrah Vista da Serra 2014Syrah Vista do Chá 2014, que estão “descansando” na minha adega e serão devidamente avaliados daqui alguns anos. Mas a julgar pelas safras anteriores, são vinhos espetaculares!

Fica a dica!


“Se todos que nos rodeiam abraçarem esse sonho, se o nosso vinho reunir as pessoas e ainda conseguirmos retribuir à região tudo o que ela nos proporciona, então teremos plantado a semente para que as próximas gerações tenham uma nova visão sobre a região de Espírito Santo do Pinhal e sobre o vinho brasileiro.”

– Família Guaspari –

Carmenère, a uva do Chile

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A Carménère tem seu nome derivado da palavra francesa carmin, graças às suas folhas que se tornam vermelhas mais cedo no outono.

 

A Carménère é a uva símbolo do Chile!

Embora nosso “vizinho” produza vinhos incríveis com outras variedades (veja exemplos aqui e aqui), a Carménère figura hoje como “a uva chilena” por excelência… Mas não foi sempre assim.

Originária da França, mais precisamente da região do Médoc, em Bordeaux, a Carménère faz parte do grupo de uvas que, juntamente com Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, Petit Verdot e Malbec, eram originalmente utilizadas na composição do chamado “blend bordalês”. Foi muito plantada, sobretudo no Médoc e em Graves, até a destruidora chegada da Phylloxera em 1867…

Quando finalmente a solução para a praga foi descoberta e os vinhedos começaram a ser replantados, era difícil encontrar mudas sadias de Carménère. Além disso, o baixo rendimento e a alta susceptibilidade à pragas tornavam seu cultivo mais trabalhoso e bem menos lucrativo. Então, pouco a pouco, os produtores de Bordeaux foram abandonando essa variedade… e a Carménère foi, virtualmente, extinta.

Até que em 1994 (mais precisamente em 24 de novembro de 1994) o ampelógrafo francês Jean-Michel Boursiquot, analisando vinhedos da Viña Carmen no Vale do Maipo (próximo à Santiago), percebeu que algumas uvas tidas como Merlot mas que demoravam mais para amadurecer eram, na verdade, a “extinta” Carménère!

As mudas originais de Carménère foram trazidas da região de Bordeaux para o Chile por volta dos anos 1850, na “era” pré-phylloxera. Graças à proteção natural da Cordilheira dos Andes e aos mínimos índices de precipitação do Vale Central, a Phylloxera não atingiu o Chile e a Carménère pôde prosperar. Foi plantadas junto a outras variedades (prática comum naquela época) e, devido às muitas semelhanças biológicas, foi confundida com sua “irmã” Merlot por quase 150 anos.

Apesar de fazerem parte da mesma família Cabernet, a Carménère é uma uva de maturação mais tardia em relação à Merlot, e seus vinhos são bem diferentes. Assim, se for colhida na época de maturidade da Merlot, estará ainda “verde” e com agressivos aromas de pimentão. Já a Merlot, se deixada até a maturação da Carménère, ficará sobremadura e com aromas de geléia e frutas “passadas”.

Depois da descoberta houve um período de adaptação. Após alguns anos de descrença, os produtores finalmente se deram conta de que estiveram produzindo o vinho “errado” por décadas e começaram a experimentar com a Carménère. Não havia sido produzido um vinho Carménère por mais de um século!

A Viña Carmen foi a primeira a produzir um Carménère varietal, em 1996. Em 1998 o Departamento de Agricultura do Chile oficialmente reconheceu a Carménère como uma variedade distinta, e não apenas um “clone de maturação tardia” da Merlot. E desde então a indústria vitivinícola do Chile assumiu o desafio de encontrar o terroir perfeito para melhor expressar as características dessa “nova” uva.

E 20 anos depois de sua “redescoberta”, a antiga uva francesa, agora moderna e “falando espanhol”, ganhou seu próprio dia no calendário: o dia 24 de novembro foi instituído como Carménère Day.

 

Degustando

A Carménère também foi o tema da última reunião da minha confraria, há algumas semanas, e tive o privilégio de provar alguns dos melhores vinhos do Chile. Entre eles o magnífico Carmin de Peumo 2010, ícone chileno da Concha Y Toro e considerado por muitos o melhor Carménère do mundo!

CarmindePeumoApesar do nome e da fama, o vinho não é monovarietal. É elaborado com 86% de Carménère, 7,5% de Cabernet Sauvignon e 6,5% de Cabernet Franc.
A Carménère utilizada vem do famoso Vinhedo Peumo, na D.O. Peumo, no Vale do Cachapoal. São vinhas plantadas em 1987, à partir de mudas pré-filoxéricas, em terraços à 170m acima do nível do mar, às margens do Rio Cachapoal. Terroir privilegiado para a expressão da Carménère, possui solo limo-argiloso aluvial que retém água e permite uma ótima maturação das uvas. O clima no vinhedo é mediterrâneo, com dias quentes e noites frescas, com o rio ajudando a manter as temperaturas mais baixas durante o verão.

Após a colheita manual (realizada em 19 e 20 de maio de 2010) o vinho é levado para a bodega, vinificado em tanques da aço inox por 27 a 30 dias e, à seguir, maturado em barricas de carvalho francês por  17 meses. Tudo sob supervisão do conceituado enólogo Ignacio Recabarren.

Reconhecido por Robert Parker como o melhor Carménère do Chile, com 93 pontos, o Carmin de Peumo 2010 é um vinho ainda muito jovem e com potencial para evoluir muito nos próximos 10 anos.

Na taça mostrava linda coloração rubi de média intensidade, brilhante. Os aromas mostravam de frutas vermelhas maduras, mentol, um leve floral, caramelo e café. Com o tempo na taça o café ganha força e surgem notas de tabaco. Ao se colocar na boca já se mostrava redondo e muito equilibrado, com notas de pimenta e frutas vermelhas, corpo médio, acidez média-alta e taninos moderados, muito macios. O final era longo e deixava a boca enxuta e aveludada. Nem sinal dos 14,5% de álcool…

Um vinho elegante e que deve ganhar em complexidade com o envelhecimento, agregando os aromas terciários que ainda não deram as caras…

Um dos melhores chilenos que já provei!