O que é o vinho “foxado”?

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O tema do post de hoje é pouco palatável. Vamos falar sobre um dos “defeitos” mais importantes do vinho, o  Foxado.

Coloco a palavra “defeito” entre aspas porque o foxado é, na verdade, uma característica de um tipo específico de vinho, e não um erro de vinificação ou resultado da guarda inadequada do vinho.

O termo “foxado” vem do inglês “foxy” e descreve um aroma terroso e adocicado, associado pelos europeus a pêlo de raposa (fox em inglês). No Brasil, o reconhecemos como o aroma de suco de uva, típico das “uvas de mesa” Concordia, Isabel e Niagara.

foxed-grapesEssas variedades pertencem à espécie Vitis labrusca, nativa da América do Norte, e são ótimas para o consumo in natura e para a produção de sucos e geléias. No entanto, os vinho produzidos com essas uvas possuem aroma desagradável ao paladar da maioria das pessoas, principalmente dos europeus.

Recentemente se descobriu que o aroma e sabor foxado dessas uvas e vinhos se deve ao composto aromático Antranilato de metila, um éster encontrado apenas nas uvas Vitis labrusca e seus híbridos, e que não está presente nas uvas chamadas européias (Vitis vinifera).

Na Europa, a vinificação de uvas americanas é proibida. Toda a produção de vinhos utiliza apenas cepas das uvas da espécie Vitis vinifera: Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, e outras aproximadamente 10.000 variedades…

garrafaoNo Brasil, a Vitis labrusca sempre foi a espécie utilizada na produção dos chamados “vinhos de mesa”, “vinhos de colônia” ou “vinhos de garrafão”. Apesar desse cenário estar mudando lentamente, ainda são a grande maioria dos vinhos produzidos por aqui. Geralmente são doces (mas também podem ser secos), e fazem grande sucesso entre os consumidores não acostumados ao paladar mais seco e tânico dos vinhos finos (produzidos com Vitis vinifera). Além do Brasil, poucos países produzem vinhos foxados…

Nestes vinhos, propositalmente (e tradicionalmente) produzidos com uvas de variedades americanas, a presença do aroma e do sabor foxado é uma característica do vinho, não podendo ser considerado um defeito.

Pela legislação brasileira, vinho é definido com “bebida resultante da fermentação alcoólica completa ou parcial da uva fresca” sem qualquer menção à espécie de uva a ser utilizada. Dessa forma, é permitido a vinificação da Vitis labrusca desde que conste “Vinho de Mesa de Americanas” no rótulo e não se misture com uvas viníferas.

 

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Afinal, a taça faz diferença?

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Você provavelmente já se deparou com inúmeros tipos de taças por aí. Taças maiores e menores, com diferentes formatos de bojo e feitas de materiais diversos. Mas na hora de degustar aquele vinho especial, será que a taça utilizada realmente faz diferença? A resposta é sim!

Da mesma forma que alguns tipos de roupa podem valorizar (ou desvalorizar) os atributos físicos de quem a veste, a taça certa pode aguçar os aromas e destacar os sabores do vinho, “valorizando” e muito a degustação!

Então, como deve ser a taça ideal?

 

A taça adequada para vinho deve possuir algumas características básicas:

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  • deve ser transparente (para permitir a perfeita análise visual do vinho),
  • ter uma haste para segurar (e o calor da mão não aquecer o líquido) e uma base para apoiar sobre a mesa,
  • um bojo com base mais larga (para o vinho “respirar” e liberar seus aromas) e boca mais estreita (para concentrar os aromas no nariz)
  • e bordas finas, não arredondadas (para que o fluxo de vinho seja naturalmente direcionado para o centro da língua e ressalte simultaneamente o buquê, a textura e o sabor ).

O material do qual é feito a taça pode variar, mas o cristal é o preferido: mais fino, leve e delicado que o vidro comum. Leva em sua composição cerca de 24% de chumbo (óxido de chumbo) o que confere menor espessura, maior transparência, brilho e sonoridade. Além disso, tem maior porosidade e, ao se girar a taça, mais moléculas do vinho se quebram no atrito contra a parede, liberando mais aromas.

As taças de vidro, sem chumbo na composição, ou de “cristais” com menor proporção de chumbo (variando em torno de 10%), são opções mais baratas, mas também mais pesadas e grosseiras. Para os mais estabanados existem as taças de cristal de titânio (a linha Tritan da alemã Schott Zwiesel), muito mais resistentes a pequenas batidas e quedas, e podem ir à maquina lava-louças!

 

Os tipos básicos de taças

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Quanto ao formato das taças, alguns estudiosos do assunto (sim, existe gente que estuda taças) advogam que cada tipo de vinho deve ser degustado em uma taça específica, desenhada especialmente para ressaltar seus atributos. Assim, é possível encontrar algumas centenas de taças diferentes no portfólio das grandes marcas como a Riedel e a Spiegelau.

Esse purismo, no entanto, é totalmente desnecessário! Para uma boa degustação é suficiente que se tenha apenas 3 tipos de taças: uma para brancos, uma taça Bordeaux para os tintos e uma flûte (ou tulipa) para espumantes. Mas como um enófilo é um apaixonado pelas sutilezas e detalhes do vinho, eu recomendo mais duas taças para o acervo: uma segunda taça para vinhos tintos (a Borgonha, de preferência) e uma taça para vinhos doces e fortificados.

 

Para vinhos tintos:

Vinhos tintos possuem aromas e taninos mais intensos. Por isso, a taça para vinho tinto deve permitir uma boa superfície de contato do vinho com o ar, permitindo a ele “respirar” e liberar seus aromas e sabores. As mais usadas são as taças Bordeaux e as Borgonha.

bordeaux_4400135Bordeaux: são taças de bojo grande e boca mais fechada, para concentrar os aromas. As bordas são afiladas de maneira a direcionar o vinho para a parte anterior da língua e permitir que a doçura da fruta seja percebida antes que os taninos (na parte de trás da boca). São indicadas para vinhos mais encorpados e tânicos, como os Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc, Malbec, Syrah, Tannat, Sangiovese…

7768-869437-pBorgonha: são taças de bojo mais largo que as Bordeaux, permitindo maior superfície de oxigenação do vinho e maior expressão do buquê. As bordas mais abertas direcionam o vinho para o palato médio, equilibrando a acidez e valorizando os aromas de boca mais complexos. São a escolha certa para vinhos delicados e complexos, como aqueles os Borgonhas (à base de Pinot Noir), Barolos, Barbarescos, Amarones e Riojas…

 

Para vinhos brancos e rosés:

Como os vinhos brancos e rosados devem ser degustados mais frios que os tintos, as taças para esses vinhos devem ser menores para preservar a temperatura (menos trocas de calor com o ambiente).Em geral, utiliza-se a mesma taça para ambos mas algumas marcas fazem modelos específicos.

whitewine_4400102O formato da taça para vinho branco é semelhante à taça Bordeaux, com boca estreita para concentrar aromas frutados e florais, e abas (bordas) finas para direcionar o fluxo de vinho através da parte anterior da língua, em busca de equilíbrio entre doçura e acidez. Como os vinhos rosés possuem taninos, suas taças são ligeiramente menores, mas com bojos maiores.

 

Para vinhos espumantes e Champagne:

sparklingwine_4400107A taça para vinhos espumantes é fina e alta, com bojo discreto, chamada de flûte (ou flauta). O aspecto alongado direciona a efervescência e os aromas ao nariz e entrega o fluxo de vinho à parte media da língua, de forma a manter o equilíbrio entre acidez e fruta. Também permite que seja apreciado o perlage do vinho (suas borbulhas) subindo pela taça.

O bojo, ainda que discreto, permite ao espumante “respirar” e realça seus os aromas. Por isso, alguns sommeliers sugerem o uso de taças de vinho branco para os espumantes com maior complexidade e estrutura, deixando as flûtes para os espumantes mais simples.

champagneflute_4400129Recentemente, produtores e experts, sobretudo da região de Champagne, tem optado por um novo formato de taça para espumantes: a tulipa. Com base ovalada e abertura estreita, como a flor que dá seu nome, essa taça alia uma boa coluna líquida (que favorece o perlage) com um bojo mais amplo, ideal para desenvolver as complexidades do vinho.

perfect_serve_coll_4500174À título de curiosidade, existe também a famosa taça Coupe, arredondada e de bojo baixo, atualmente em desuso. Diz a lenda que foi moldada no seio de Maria Antonieta. Devido à sua forma, dissipa facilmente os aromas e a perlage, e esquenta mais rapidamente o espumante. Muito utilizada até a década de 1960, o próprio Comitê de Champagne chegou a proibi-la em suas normativas, mais ainda é encontrada devido ao seu estilo vintage”.

 

Para vinhos de sobremesa e fortificados:

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São taças menores pois os vinhos fortificados e doces são consumidos em menor quantidade. Seu design lembra uma pequena tulipa, mas com a boca mais estreita e bordas bem finas. A abertura estreita conduz o fluxo da bebida para o fundo da boca, de maneira a não ressaltar a já elevada doçura dos vinhos de sobremesa. Para vinhos fortificados, como Porto, Jérez e Marsala, a abertura da boca é ligeiramente maior, afim de direcionar o fluxo à ponta da língua e enfatizar a doçura (que equilibra o álcool).

 

A taça ISO

foto-taca-isoPensando na grande dificuldade em dispor de tantas taças diferentes na hora das degustações técnicas, a International Standards Organization decidiu padronizar uma taça para análise sensorial de todos os tipos de vinhos. Após anos de pesquisas, em 1970 surgiu a taça ISO que, na prática, serve como taça “coringa” para os diferentes tipos e estilos de vinho. Seu formato é basicamente o da taça Bordeaux, mas com tamanho reduzido. Deve ser de “cristal” com 9% de chumbo, totalmente transparente e incolor, e sem relevos ou detalhes. É a taça padrão em degustações mundo à fora e um dos melhores modelos para começar seu acervo.

 

Cuidando das taças

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As taças para vinhos, sobretudo as de cristal, são objetos delicados e necessitam cuidados especiais para que continuem entregando o melhor do vinho ao degustador e enriquecendo a experiência de beber tão precioso líquido! Além disso, as de grandes marcas podem ser tão caras quanto uma garrafa de vinho.

Na hora de lavá-las, recomenda-se lavar à mão apenas com água morna, ou com um mínimo de detergente neutro. Se for usado detergente, a taça deve ser abundantemente enxaguada pois qualquer resquício deste pode alterar o aroma e o sabor do vinho, ou impedir a formação das borbulhas nos espumantes. Devem ser secas com um pano limpo imediatamente após a lavagem, e então guardadas em pé em local livre de poeira ou odores. Embora as taças de cristal com titânio sejam resistentes à máquina-de-lavar-louças, estas devem ser evitadas devido aos fortes sabões e secantes que deixam manchas e odores desagradáveis.

 

 

A História do Champagne – parte 2

 

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Os espumantes da região de Champagne viraram febre na corte francesa do século XVIII, animando as festas da aristocracia parisiense e os jantares da nobreza em seus chatêaux. Sua imagem, desde aquela época, está associada ao luxo e às celebrações.

Com a Revolução Francesa, porém, muito dos compradores de Champagne foram parar na guilhotina ou fugiram para outros países. Durante as “Guerras Napoleônicas”, com o bloqueio dos portos europeus, boa parte da produção teve que ser contrabandeada. Foi apenas com a derrota de Napoleão que o Champagne entrou oficialmente nas cortes estrangeiras, conquistando seu lugar nas taças da nobreza européia.

Veuve-Clicquot-BoursaultFoi nesse período que uma tal Madame Clicquot-Ponsardin se tornou viúva (veuve, em francês) e assumiu o controle de uma das mais importantes Maisons da região de Champagne.  Com ajuda de seu mestre de cave, Anton von Müller, desenvolveu a técnica de remouage que consiste em encaixar as garrafas pelo gargalo nas pupitres (cavaletes especiais) aplicando rotações periódicas nas garrafas e inclinações progressivas do pupitre, até que fiquem com o gargalo para baixo (sur pointe) e os sedimentos, ou “borras” (os restos de leveduras mortas após a segunda fermentação), se acumulem no gargalo da garrafa. Esse processo pode levar meses e, ao final, o gargalo é congelado, a tampa da garrafa é aberta e os sedimentos são expelido por pressão (dégorgement). Após esse processo, Veuve Clicquot adicionava nas garrafas o licor de expedição, uma espécie de xarope, para dosar a doçura do Champagne. 

Durante a maior parte do século XIX o Champagne produzido era doce. O alto teor de açúcar adicionado pelo licor de expedição visava agradar os diferentes mercados da bebida, como a Rússia, a França e os Estados Unidos, que a preferiam doce. Apenas a Inglaterra preferia o estilo seco, chamado brut, que aos poucos foi conquistando o restante da Europa conforme a qualidade do Champagne aumentava.

Com a chegada do século XX, chegaram grandes desafios à produção de Champagne: a Revolução Russa de 1917 interrompeu as vendas ao segundo maior mercado consumidor até então; a I Guerra Mundial praticamente destruiu o vinhedo e as cidades da região, e obrigou a população a se refugiar da artilharia alemã nas caves subterrâneas; a “Lei Seca” americana de 1920 e a Grande Depressão da década de 30 fez as vendas despencarem; a II Guerra Mundial trouxe mais destruição para o vinhedo de Champagne…

Apesar das dificuldades, os últimos 70 anos viram a produção e popularidade do Champagne aumentar progressivamente e conquistar o mundo. Sua fama inspirou o surgimento de inúmeros “imitadores” ao redor do mundo, como a Cava na Espanha, o Sekt na Alemanha, os Cremants na própria França, além de uma infinidade de espumantes em outros países. Foram necessárias leis rígidas para delimitar a área de produção e impedir o uso do termo “Champagne” em espumantes de fora da AOC.

Hoje, “Champagne” se tornou não apenas a expressão de um terroir, mas também uma marca em si mesmo, e um ícone de luxo.


 

Degustando…

0821Ano passado tive o privilégio de conhecer Reims e visitar as caves de uma das mais tradicionais Maisons de Champagne, a Taittinger. Toda a linha de deliciosos champagnes, dos Vintages (safrados) ao fabuloso Comte de Champagne, é espetacular e prima pela elegância e complexidade. Mas é justamente o champagne “de entrada” da casa, o Taittinger Brut Réserve, que na minha opinião destaca a Maison entre as dezenas de vizinhas. Produzido com 40% de Chardonnay e 60% de Pinot Noir e Pinot Meunier, passa no mínimo 3 anos maturando nas caves em contato com as leveduras (sur lies) e mostra consistência em aromas e em qualidade, ano após ano.

Na taça, tem bonita coloração amarelo palha, brilhante e com perlage finíssima e constante. No nariz, apresenta frutas amarelas, flores brancas e intensos aromas de panificação. Os aromas de boca confirmam as frutas tropicais e as notas de fermentação, com um leve toque cítrico. É seco, tem corpo médio e alta acidez, com grande presença de boca e longa persistência. Um champagne incrível, elegante e acessível!