Vinhos alemães – Classificação

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A classificação dos vinhos alemães pode ser bem complicada para quem não está familiarizado. Primeiramente pelo motivo óbvio do rótulo estar todo em alemão. Mas principalmente porque na Alemanha, diferentemente de outros países, os vinhos são classificados de acordo com o nível de maturação (amadurecimento) das uvas e com o nível de doçura (açúcar residual) do vinho.

O objetivo deste post não é descrever todos os aspectos técnicos das diferentes classificações dos vinhos alemães. Pelo contrario, quero ajudar os leitores, de forma didática, a ficarem menos perdidos frente à esses belos vinhos.

 


Classificação quanto à doçura:

Os vinhos alemães são classificados quanto à doçura levando-se em conta o teor de açúcar residual presente, em gramas por litro:

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  • Trocken/Selection: são os vinhos secos, com menos de 9 g/l de açúcar residual;
  • Halbtrocken/Classic: são os “meio-secos”, vinhos levemente doces com até 12 g/l de açúcar residual (até 18 g/l para os chamados de “Classic”)
  • Feinherb: termo não oficial para os vinhos meio-secos, semelhante à Halbtrocken;
  • Liebliche: vinhos doces com até 45 g/l de açúcar residual;
  • süß or Süss: vinhos doces com açúcar residual acima 45 g/l .

Mesmo sendo chamados de trocken, vinhos com 9g/l de açúcar residual tem grande doçura. Entretanto, o equilíbrio com a alta acidez típica desses vinhos produz um resultado gustativo seco, embora com aromas adocicados, adicionando complexidade ao conjunto. Um bom exemplo são vinhos de colheita tardia em que o produtor estende a fermentação das uvas até o consumo quase total dos açucares, resultando num vinho seco (trocken) e altamente gastronômico.

 


Classificação quanto à qualidade:

Os vinhos alemães podem ser classificados, quanto à qualidade, em 3 tipos, com uma classificação adicional (quanto à maturação das uvas) para os vinhos de qualidade superior.

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Tafelwein Landwein: são os “vinhos de mesa”, o mais baixo degrau de qualidade dos vinhos alemães.  Sem complexidade ou potencial de guarda, são vinhos simples e leves, respondendo apenas por 3,5% da produção vitivinícola alemã.

Qualitätswein (QbA): anteriormente chamados de Qualitätswein bestimmter Anbaugebiete (QbA), são vinhos de origem controlada e provenientes de uma das 13 regiões vinícolas autorizadas (anbaugebieten). São vinhos simples, para consumo diário, podendo serem secos ou meio-secos. As uvas devem satisfazer um grau mínimo de maturação (76-90 Oechsle) e o vinho produzido deve ter um mínimo de 7% de álcool.  A técnica de chaptalização, que consiste em adicionar açúcar ao mosto de forma a aumentar o nível alcoólico final, sem alterar a doçura, é permitida.

Prädikatswein: antes de 2007 eram chamados Qualitätswein mit Pradikat (QmP), ou “Vinhos com Predicados”. São vinhos de qualidade superior, com origem controlada e não podem ser chaptalizados nem fortificados (adição de álcool). Possuem uma classificação adicional (o Prädikat), de acordo com a maturação das uvas no momento da colheita (medidas pela Escala Oechsle):

  • Kabinett – o vinho “Reserva”, que antigamente era guardado nos “gabinetes” dos mosteiros. Possui estilo mais leve e delicado, com baixo teor alcoólico (no mínimo 7º, mas geralmente entre 9º e 12º) e nível de maturação de 67-82 Oechsle (com 148–188 g/L de açúcar residual). Podem ser secos ou meio-secos.
  • Spätlese – são vinhos de “colheita tardia” (late harvest), colhidos pelo menos 7 dias após a data da vindima. Suas uvas mais maduras (76-90 Oechsle) atingem doçura entre 172–209 g/L de açúcar residual, embora possam ser “Trocken” se o período de fermentação foi estendido (ver acima).
  • Auslese – significa “colheita selecionada”, vinificando uvas sobremaduras (83–110 Oechsle) e botrytisadas. O vinho produzido tem alta doçura (191–260 g/l açúcar) mas podem ser “Trocken”, com teor alcoólico mais elevado.
  • Beerenauslese (BA) – significa “colheita selecionada de bagos”. Como o próprio nome sugere, os bagos são colhidos um a um, selecionando-se as uvas passificadas pela “podridão nobre” (110-128 Oechsle), com mais de 260 g/l de açúcar! Tendem a ter baixo teor alcoólico, mas obrigatoriamente acima de 5,5º. Somente são elaborados em anos excepcionais e são perfeitos para acompanhar sobremesas e queijos.
  • Trockenbeerenauslese (TBA) – no topo da pirâmide estão os raros e especiais vinhos doces de “colheita selecionada de bagos secos”. Produzidos com uvas extremamente maduras (150-154 Oechsle) e botrytisadas, quase como uvas-passas (daí o prefixo trocken), tem baixíssimo rendimento e são motivo de orgulho para o produtor.
  • Eiswein – são os Icewines, “vinhos do gelo”, produzidos com uvas congeladas na videira por 1 semana, geralmente colhidas de madrugada, à temperaturas negativas. As uvas tem teor de amadurecimento BA (110-128 Oechsle) mas, ao contrario das categorias anteriores, não podem estar botrytisadas. Devem ser prensadas imediatamente (ainda congeladas) produzindo um néctar com alto teor de açúcar  (acima de 260 g/l). São vinhos de sobremesa raros e equilibrados pela alta acidez, geralmente atingindo preços muito elevados.

O conceito de Terroir

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A palavra francesa terroir é talvez uma dos termos mais importantes no mundo do vinho. Não possui tradução e seu conceito foi alvo de inúmeros debates aos longos das últimas décadas, desde que que passou a ser associado à características nobres dos vinhos.

Segundo a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), a definição oficial de terroir é “conceito que remete a um espaço no qual está se desenvolvendo um conhecimento coletivo das interações entre o ambiente físico e biológico e as praticas enólogicas  aplicadas, proporcionando características  distintas aos produtos originários deste espaço.”

Complicado? O Grande Larousse do Vinho facilita:

Terroir é uma palavra francesa sem tradução em nenhum outro idioma. Significa a relação mais íntima entre o solo e o micro-clima particular, que concebe o nascimento de um tipo de uva, que expressa livremente sua qualidade, tipicidade e identidade em um grande vinho, sem que ninguém consiga explicar o porquê.”

Através das definições acima podemos entender que o conceito de terroir não engloba apenas elementos do meio-ambiente em si, mas trata da interação, em uma determinada área geográfica, entre:

  • fatores naturais: composição do solo, clima local, amplitude térmica, altitude, relevo do terreno, exposição solar, ventos, humidade, volume e  distribuição de chuvas, drenagem do solo;
  • fatores humanos: escolha das castas, as técnicas agrícolas utilizadas, os métodos de elaboração do vinho, seu envelhecimento – ou seja, o savoir-faire local.

Esse conjunto de fatores naturais e humanos (o terroir!) exerce influência decisiva no desempenho do vinhedo e na qualidade da uva, participando da personalidade final do vinho e garantindo sua tipicidade de origem, como uma espécie de assinatura regional.

Bons exemplos são Bordeaux e Borgonha, na França.

A Borgonha talvez seja a região no mundo onde o conceito de terroir seja mais evidente, e a Pinot Noir (a principal cepa tinta da região) a uva que mais claramente expresse essa influência. Pequenas parcelas de terra (climats) separadas por poucos metros podem produzir vinhos com caráter e estrutura muito distintos, graças à drenagem do solo, inclinação do terreno e exposição solar particulares. Tudo isso, aliado às técnicas de cultivo e produção tradicionais, fez nascer um mosaico de diferentes Appellations d’Origine e deu aos vinhos da Borgonha reputação mundial.

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Em Bordeaux, as diferenças na composição do solo entre as margens esquerda e direita do rio Garonne influenciam diretamente no sucesso das diferentes variedades de uvas plantadas. Enquanto a margem direita tem solo predominantemente argiloso e calcário, perfeito para a Merlot, a margem esquerda tem solo rico em cascalho, excelente para a Cabernet Sauvignon. Nesses diferentes solos, e nos micro-climas de cada Châteaux, essas uvas expressam de maneira singular sua características, produzindo vinho típicos de cada terroir.

Assim, apesar do conceito de terroir estar na base da definição das Denominações de Origem (um tema para um outro post) ele se opõe a tudo que seja padronização e uniformização. É a identidade cultural do vinho, sua tipicidade, caráter distintivo e característico. É o que faz um vinho ser marcante e inesquecível.

O consumo moderado de álcool

O consumo abusivo do álcool é sabidamente associado à uma infinidade de problemas de saúde e é uma das maiores causas de morte evitáveis no mundo (veja o Relatório Global sobre Álcool e Saúde da Organização Mundial da Saúde), com um custo econômico e social gigantesco.

No entanto, centenas de trabalhos científicos nas últimas décadas tem dado conta dos efeitos benéficos do consumo moderado de álcool, principalmente em relação à prevenção e redução na mortalidade de doenças cardiovasculares. Segundo a Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard, mais de 100 estudos prospectivos já mostraram uma redução na incidência dessas doenças da ordem de 25 à 40% associado ao consumo moderado de bebidas alcoólicas.

A American Heart Association (uma das mais prestigiadas entidades da área de saúde) afirma que os efeitos benéficos do consumo moderado de álcool sobre o coração são muitos e não são exclusivos do vinhos tinto, como se pensava até há pouco tempo. O responsável pelos efeitos benéficos do vinho na saúde, aparentemente, é o álcool e não suas outras substâncias.  O Resveratrol, e outros polifenóis presentes na casca e semente da uva, são agentes antioxidantes promissores e amplamente estudados pela indústria farmacêutica para prevenção do câncer e das doenças cardiovasculares, mas têm falhado em demonstrar in vivo os resultados apresentados in vitro.

Mas a verdadeira má notícia para nós, enófilos, fica por conta da definição de “consumo moderado” que é bem abaixo do que gostaríamos.

Dietary Guidelines for Americans 2015-2020, do US Department of Agriculture, define consumo moderado como até 1 drink para mulheres e até 2 drinks para homens (sendo 1 drink aproximadamente 150mL de vinho com 12% de álcool) por dia. Acima dessa quantidade diária, o consumo de álcool é considerado deletério para a saúde e desencorajado.

Dito tudo isso, deixo aos leitores qualquer reflexão sobre o assunto e encorajo os amantes do vinho a beberem com responsabilidade.